Boa noite Doutora Helena
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Escrevo-lhe mais uma vez a pedir a sua preciosa opinião e ajuda.
Fui contactada por uma mãe cujo filho com dislexia frequenta o 9º ano e que como tal vai irá realizar em Junho os exames nacionais.
O problema é que apesar da contínua insistência dos pais junto dos professores no sentido de verificarem se não existiria algum problema, apenas no 8º ano lhe foi diagnosticada dislexia. Agora na escola, quando os pais procuraram saber que medidas poderiam ser tomadas para que não fosse prejudicado nos exames nacionais, foram informados que de acordo com a legislação (despacho normativo nº 10/2009, ponto 18.3), os alunos só podem ser referenciados, de modo a não serem penalizados nos exames nacionais, se a dislexia for diagnosticada e confirmada até final do 2º ciclo do ensino básico.
Conhece alguma outra estratégia/ fundamentação que estes pais possam alegar para reverter a situação?
Envio-lhe em anexo a referida lei. Eu sou professora no sector privado e há muito tempo que não estou a par destes procedimentos, fiquei bastante surpreendida ao ler o despacho normativo, parece-me incompreensível que quem já foi prejudicado por um diagnóstico tardio, seja ainda penalizado por esta lei no exames, contudo não sei o que poderão estes pais fazer.
Agradeço-lhe mais uma vez,
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O que eu recomendo nestes casos:
Fazer um Memorando / Historial sobre o que no 1.º e 2.º ciclos já se observava quanto às dificuldades do aluno (erros, apoios, relatórios existentes, actas, exercícios, etc. que ainda têm na família nos quais as dificuldades sobressaem, e, com base nele, apresentar Requerimento (juntar informação actual do D.T. e dificuldades que existem...) e aí requerem (os pais + o D.T.) que apesar de não ter sido organizado em devido tempo o processo do aluno que fundamentaria a sua condição de disléxico, as dificuldades já existiam e foi falha da Escola...
Isto costuma ser bem recebido e aí os direitos ainda ficam salvaguardados...
Boa noite,
Queria dizer-lhe que sou professora de educação especial, Também sou dislexica e toda a minha família tem a mesma característica. Os meus dois filhos também são dislexicos. Fiz o meu curso de magistério primário em 1988 e desde essa altura tenho tido sempre o máximo cuidado em lidar com crianças dislexicas Quando apareceram meus filhos resolvi fazer 2 pós graduações: uma em comunicação e linguagem e outra em cognitivo e motor. É na 1ª que se engloba a problemática das disçexias. Nunca deixei sinalizar meus filhos porque naquela altura ficavam rotulados. Uma criança dislexica é uma criança extremamente inteligente, daí a facilidade que a essas crianças têm nas outras áreas. Não concordo com a medicação com arritalina Estas crianças precisam de muito amor, muita paciencia , muita dedicação e acima de tudo promover-lhes uma grande auto estima.Valorizar tudo o que fazem de bom. A dislexia deixou de ser contemplada pela educação especial, por isso eu aconselharia os pais de crianças dislexicas a procurarem uma professora de educação especial, mas que seja de confiança e que trabalhe particularmente. A dislexia é provocada por uma pequena disfunção do nosso cérebro e temos de o exercitar para que a zona responsável pela leitura e pela escrita deixe de ser "preguiçosa" Há alguns exercícios que poderão ser aplicados às crianças para as ajudar.e acima de tudo devemos valorizar tudo o que fazem, ainda que seja uma coisa com pouco significado. O mais importante é que as crianças sintam que apesar de terem alguma dificuldade também são capazes de progredir e ser bons no que fazem.
bom ano para todos
Fernanda Joaquim
Boa noite,
Devem receber milhões de e-mails a dizer o mesmo, mas acho que gostaria de deixar o meu testemunho.
Desde muito cedo que tive dificuldades em acompanhar o ritmo para o que se esperava de uma criança naquelas idades. Comecei a falar um pouco mais tarde do que o normal e até muito tarde tinha dificuldade em dizer certas palavras como Crato " Carto" e outras mais que me faziam sentir menos inteligente, principalmente porque tinha um irmão e uma prima da minha idade que eram simplesmente o inverso de mim, mega inteligentes, não estudavam e tiravam grandes notas, etc.
Sempre fui muito dedicada aos estudos e sempre tive muito apoio familiar o que fazia com que até ao meu 6ºano tivesse média de quatros e cincos, tirando claro a português que normalmente ficava sempre no 3. A minha leitura era péssima e em ditados conseguia ter 5 a 6 erros por linha...
Com o tempo e apesar de toda a minha dedicação havia coisas que não se alteravam, tinha sempre grandes dificuldades na escrita e na leitura. Com a introdução de Línguas como Inglês e Francês tudo começou a piorar ainda mais.
No 8ºAno foi a catástrofe total (para mim claro) tinha tirado as minhas primeiras negativas (Português e História). A minha família achou por bem colocar-me numa explicadora de Português fora da escola já que todas as professoras diziam que era distraída e que escrevia e interpretava muito mal o português.
As minhas notas ficaram estáveis. Tudo positivo, 3 a tudo o que implicava escrita e 5 a tudo o que tivesse matemática, desenho e actividade Física. Acredito que me refugiava no que me dava segurança e confiança.
No meu 10ºAno e tendo sempre explicações de Português 3 vezes por semana durante estes 3 anos a minha própria explicadora pediu-me que fosse a uma psicóloga para ver se tinha dislexia, porque pelo que ela tinha lido eu tinha muitos "sintomas". Na primeira vez que me disse isso senti-me ofendida, até mesmo inferior. Apesar de ela me ter explicado o contrário e até me ter tentado motivar dizendo que grandes génios das ciências também o eram isso não foi suficiente para me deixar bem.
Apesar de tudo, e como nunca fui de me negar a nada, falei com a minha mãe que achou muito bem e fui fazer o exame. A psicóloga era dislexia também o que me fez ficar bem mais segura. Apesar de tudo nada nos impede de alcançar patamares mais altos.
Fui então diagnosticada com dislexia em 1998/1999, no meu 10ºAno. Segui o 10ºano e 11ºano sem problemas e sem grandes necessidades de ajudas, mas mantive a minha explicação de Português (não escrevo muito bem, mas já consigo escrever um texto com alguma logica, algo que no inicio era impensável) e tinha direito a mais 30 min nos testes caso precisasse.
Durante este tempo fui sempre acompanhada na escola (Escola Arco-íris da Portela de Sacavém) por uma psicóloga que sabia o que era a dislexia e sempre me apoiou (na minha parte da autoconfiança que acredito que até hoje continue a ser algo difícil de ter).
Segui para a faculdade, segui Eng.Civil e cheguei ao 4ºano no IST. Desisti porque percebi que não era aquilo que pretendia. Adoro desporto e era isso que pretendia fazer. E assim foi. Parei um ano e inscrevi-te novamente na faculdade, desta vez de Desporto onde estou agora a concluir.
Tenho 30 anos, sou professora de Capoeira, Instrutora de Cardio-Fitness, Spinning e Personal Trainer. Pratico alem destas actividades Jiu-Jitsu Brasileiro, Kick-Boking e Surf.
Não posso dizer que tenha sentido muito a discriminação, porque apesar de eu própria me criticar e de me inferiorizar todos os meus amigos, famílias e professores me apoiaram muito e como tal sempre ultrapassei os meus problemas.
Continuo com dificuldade básicas, como detectar erros meus em mails, poster promocionais, cartas. Sinto-me incapaz de falar em publico o que durante apresentações de capoeira tenho que o fazer e a mais marcante é sem duvida a incapacidade de diferenciar a esquerda da direita.
No meu exame de código pedi ao examinador que me indicasse com as mãos para onde queria que virasse já que tinha grandes dificuldades. Riu-se e em todas as curvas dizia esquerda ou direita e apontava para que me orientasse.
Os meus amigos já sabem quando vou a conduzir se quiserem que vire dizem, "para o meu lado" ou "para o teu lado". E na realidade já nem notam que o fazem. A capoeira tem uma vertente social MUITO forte o que me ajudou a ultrapassar algumas dificuldades que tinha.
Em frente a um espelho quando dou aulas de capoeira e tenho que dizer perna esquerda/direita atrás, digo. Perna com logotipo / sem logotipo atrás. E todos brincam mas todos respeitam e acho que isso é o mais importante.
Não me sinto mal de forma alguma e sei que é bastante leve para o que leio sobre o assunto. Sei também que tive muito apoio na parte mais importante da minha formação o que me fez não perder a confiança de que eu era capaz.
Tem dias que tudo corre mal, e que parece que tive um surto de estupidez, o que me atira um pouco abaixo, mas respiro fundo e penso amanhã é outro dia! Tenho tudo para ser feliz!
Acho que termino aqui a minha história. Nunca tinha escrito nada nem nunca tinha pensado bem no meu percurso até hoje. Por algum motivo não consigo dormir e fui parar ao vosso site e decidi escrever o meu testemunho.
Cumprimentos
R
Testemunho
Se a escolha do curso de medicina para o vestibular e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) assusta os candidatos pelas horas de estudo e preparo antes das provas, para quem se descobre disléxico o caminho pode ser ainda mais tortuoso. Mesmo assim, o jovem Vitor Rossi Santos, de 19 anos, resolveu superar todas as dificuldades colocadas pela dislexia e se tornar um médico. "Toda a minha família trabalha na área da saúde e eu vi que aquilo lá é para mim. É o que eu quero mesmo, e desde pequeno é assim. Quando perguntavam para mim, eu já respondia que queria ser médico", diz.
Para isso, Vitor sabe que terá que enfrentar cada linha que tiver que ler ou escrever neste sábado (8) e domingo (9), quando prestará o ENEM em Mogi das Cruzes (SP), cidade onde mora. Além disso, a maratona neste fim de ano inclui mais 10 vestibulares de faculdades particulares, ou seja, mais horas de provas, mais leitura e escrita.
Enunciados grandes, textos compridos e a temida redação assustam ainda mais Vitor por causa da dislexia. Segundo a psicóloga e psicopedagoga Fátima Cavenaghi, quem tem o distúrbio tem dificuldade com a leitura e a escrita. "Dislexia é um distúrbio de aprendizagem na área da leitura, escrita e soletração. Pesquisas realizadas em vários países mostram que cerca de 10% a 15% da população mundial é disléxica", explica.
Vitor foi diagnosticado aos 7 anos, quando descobriu que havia repetido na escola. "Foi quando eu repeti de ano. Eu estava na primeira série e tinha uns 7 anos mais ou menos. Repeti e aí minha mãe foi querer saber o que aconteceu. Ela via que eu estudava, então ela percebeu que tinha algo errado. Foi aí que a gente começou a ir atrás para descobrir o que era", se lembra.
De acordo com a psicopedagoga Fátima, o diagnóstico na infância é fundamental para o aprendizado da pessoa. "Se o disléxico não for submetido a uma intervenção especializada, ele pode se permanecer analfabeto ou semi-analfabeto, sendo excluído de profissões e vocações que necessitem de uma preparação acadêmica", explica.
"Quando eu era menor mesmo, quando a dislexia de fato era grande, eu sofria demais", se lembra Vitor. "A dislexia vai perdendo seu nível, ela não se mantém constante. Por isso quando eu fiz o teste de dislexia, ela era grande. Mas agora ela caiu para leve. E hoje em dia eu ainda tenho um problema com a parte de leitura e tudo mais, mas bem menos que antes", ressalta.
Vitor, no entanto, ainda teme as questões do Enem relacionadas ao português. "Eu tenho muita dificuldade em português principalmente, né? Desde pequeno eu sempre evitei essa matéria. Eu estudava horas com uma professora e no dia seguinte tirava nota baixa. Então era um desânimo absurdo com português e na hora que fui querer aprender, vi que era uma disciplina que eu não tinha nem base", explica.
De acordo com a psicopedagoga, é comum o disléxico ficar frustrado na escola. "O jovem disléxico muitas vezes traz um sentimento construído socialmente de 'não leitor ou não escritor'. O pensamento que geralmente ocorre nessa situação é 'não gosto de escrever, não quero aprender'", diz.
Superação
Mesmo com as dificuldades, Vitor prestou o Enem e alguns vestibulares em 2013 e ficou feliz com o resultado. "Tomara que daqui a alguns dias, no Enem, eu me supere mais uma vez, como aconteceu na redação do ano passado", diz confiante. "Na redação do ano passado do Enem eu fiz 760 pontos, algo que me deixou orgulhoso e deixou meus pais também orgulhosos de mim". Vitor conta que com essa nota conseguiria entrar em geografia em uma faculdade federal do Rio de Janeiro. "Mas não adianta, né? Eu quero medicina. E mesmo se eu conseguir algum outro curso esse ano, também não vou. Vou estudar mais um ano para medicina", afirma.
Estudante diz que hoje lida bem com a dislexia
O jovem diz que não esquece o caminho que trilhou. "Eu acho assim, eu lutei muito para conseguir. Não é fácil, principalmente quando você é pequeno e não vê resultados nas provas da escola. Você estuda acima do normal e sua nota não é tão boa quanto a das outras pessoas. Só que eu tive muitos apoios e agora estou tendo resultados, né?", diz feliz. Segundo ele, a redação no Enem não foi o único motivo de orgulho da família. "Em uma faculdade no ano passado eu quase consegui entrar para medicina. Foi por pouco, acho que se eu acertasse mais um teste, talvez eu conseguisse entrar também".
ENEM
Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), as pessoas que têm o distúrbio podem pedir uma hora a mais em cada dia de prova, auxílio ledor e auxílio transcritor. O Ministério da Educação (MEC) não tem dados quanto ao número de disléxicos inscritos para o Enem 2014, no entanto, afirmou que cerca de 5,7 mil pessoas pediram o auxílio ledor - mas neste número também estão inclusos outros distúrbios e deficiências. Vitor preferiu pedir apenas a hora a mais para fazer as provas. "Eu consegui uma horinha a mais nos dois dias para fazer a prova. Nos outros vestibulares que me inscrevi também pedi. Isso é extremamente legal, né? Esse reconhecimento e tudo. Porque uma hora a mais simplesmente ajuda demais", diz. "Eles ofereceram os auxílios ledor e transcritor, mas eu não quis. Prefiro fazer sozinho mesmo por eu já ter treinado assim desde pequeno. É que essa política de poder ler com alguém do lado é muito recente, então eu sempre tive que treinar sozinho", explica. Se o disléxico não for submetido a uma intervenção especializada, ele pode se permanecer analfabeto ou semi-analfabeto"
Fátima Cavenaghi
O estudante conta que tem medo do modelo de prova do ENEM. "O ENEM é uma prova que eu tenho que te tentar me controlar emocionalmente, porque é uma prova que querendo ou não me assusta muito. Eu acho o Enem difícil para mim por causa da interpretação de texto e da redação. Mas tomara que eu me supere", diz. Apesar de achar que a prova é difícil, Vitor promete se dedicar ao máximo. "Eu prestarei o Enem e eu prestarei para medicina. Entrarei com tudo nessa prova e eu acho que posso ter capacidade para conseguir. Por eu ter superado tantas coisas, dá para eu superar mais essa.
Estudo
Vitor reconhece que ainda tem uma grande estrada pela frente e, para alcançar seu objetivo que é entrar em um curso de medicina, estuda 13 horas por dia de segunda a sexta. "A rotina de estudo é pesada, tenho aula do cursinho todo dia e na parte da tarde faço aulas de redação", diz. "Estou há um ano no cursinho pré-vestibular. Os meus estudos começam às 7h no cursinho e terminam em média umas 20h. De sábado vou das 7h às 13h. Só tento tirar o domingo para descansar", explica.
Para conseguir estudar medicina, o jovem abriu mão da academia, do futebol e da balada com os amigos. "Se você quer medicina tem que ser o mais perfeito possível. Qualquer coisa que te atrapalhe vai ter uma consequência na sua nota final", diz. Vitor tem medo de ficar muitos anos nos cursinhos preparatórios. "Tem gente que tenta por muitos anos e isso dá um desespero, né? As vezes eu penso, será que eu vou ficar tentando e tentando. Mas os resultados do ano passado mostram que estou no caminho certo", conclui.
Os professores e educadores costumam ser os primeiros a suspeitar que a criança tem uma dificuldade específica de aprendizagem, através da comparação do seu desempenho com o dos restantes colegas.
O aluno disléxico é normalmente triste e deprimido, pelo facto de não conseguir superar as dificuldades de aprendizagem, apesar dos esforços, ao longo dos anos. Esta frustração pode dar origem a sentimentos de inferioridade.
O quadro de dislexia é semelhante na maioria das pessoas e inclui os seguintes aspetos: fraca motivação para realizar tarefas que envolvam competências de leitura e escrita; evitar atividades que exijam ler em voz alta, pelo medo de exposição; ansiedade em momentos de avaliação; sentimento de insegurança e vergonha como resultado dos fracassos sucessivos.
A partir do momento em que são observadas estas dificuldades numa criança, a mesma deverá ser encaminhada para uma consulta de psicologia e/ou educação especial, onde será realizada uma avaliação psicopedagógica, para despistar a dislexia.
Essa avaliação inclui a história clínica do aluno, a análise cognitiva e comportamental, e a avaliação da leitura (descodificação e compreensão), da linguagem oral e escrita, em alguns casos também da linguagem quantitativa, para identificar o tipo de erros, a sua intensidade e duração.
Os resultados da avaliação vão servir de base para a construção de um plano de intervenção com metodologias adequadas a cada aluno, que deve ser partilhado entre profissionais de saúde, família e professores, para garantir um trabalho de equipa.
Com uma intervenção precoce conseguem ultrapassar-se cerca de 90% das dificuldades. Idealmente, o apoio deverá ter início antes da entrada no primeiro ciclo, para que a criança possa ter os pré-requisitos da aprendizagem da leitura.
Os alunos disléxicos têm direito a adequações na sala de aula e nos processos de avaliação, para que possam ter as mesmas oportunidades de sucesso.
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A partir dos inúmeros estudos realizados ao longo do tempo, é possível identificar um conjunto de características atribuídas às crianças e jovens com Dislexia, as quais consideramos importante referir, na medida em que pode constituir informação útil na sua deteção precoce.
Segundo Torres e Fernandéz (2001) as características da Dislexia podem agrupar-se em dois grandes blocos: comportamentais e escolares. Na primeira categoria as autoras incluem a ansiedade, a insegurança, a atenção instável ou o desinteresse pelo estudo. Relativamente às características escolares, as autoras referem um ritmo de leitura lento, com leitura parcial de palavras, perda da linha que está a ser lida, confusões na ordem das letras (ex.: sacra em vez de sacar), inversões de letras ou palavras (ex: pro em vez de por) e mescla de sons ou incapacidade para ler fonologicamente.
Fonseca (1999) aponta outro tipo de características globais de comportamento, mais relacionadas com aspetos de maturação e de desenvolvimento global.
O autor indica problemas nas seguintes áreas:
De um modo mais específico, o autor indica também dificuldades no plano auditivo e no plano visual. Estas características estão relacionadas, respetivamente, com a Dislexia Auditiva e com a Dislexia Visual, dois dos tipos mais mencionados de Dislexia (Myklebust e Johnson, 1962 cit. in Valeti, 1990; Myklebust e Johnson, 1991 cit. in Cruz, 1999; Fonseca, 1999).
As principais características da Dislexia Auditiva |
As principais características da Dislexia Visual | |
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Etimologicamente, a palavra “Dislexia” é composta pelos radicais “dis”, que se refere a uma ideia de difícil e “lexia”, que significa palavra. No seu sentido literal, o termo refere-se, portanto, a dificuldades na aprendizagem da palavra (Montenegro, 1974). Nos últimos anos, o conceito tornou-se mais específico, designando uma síndrome determinada, que se manifesta em dificuldades de distinção ou memorização de letras ou grupos de letras e problemas de ordenação, de ritmo e de estruturação das frases (Torres e Fernandéz, 2001).
Nos anos 70, a Dislexia era considerada uma doença social grave, que afetava um elevado número de alunos, considerados “pacientes”, como podemos constatar através das palavras de Montenegro (1974). “As percentagens de escolares afetados pela Dislexia e pela disortografia são verdadeiramente notórias para que o fenómeno deixe de constituir um grave problema para os próprios pacientes, os pais, os mestres, os especialistas” (pág. 6).
De acordo com a Associação Internacional de Dislexia, a Dislexia é uma dificuldade específica da aprendizagem, com origem neurológica, caracterizada por dificuldades no reconhecimento adequado das palavras, por um discurso pobre e dificuldades de descodificação, resultantes de um défice na componente fonológica da linguagem, muitas vezes surpreendente, quando comparado com as capacidades cognitivas e com as aprendizagens em outras áreas.
Nos dias de hoje, as dificuldades de leitura e escrita continuam a constituir um dos principais obstáculos que surgem ao longo da escolarização, na medida em que, além da dificuldade na aquisição da leitura ou escrita em si, causam dificuldades em outras áreas de aprendizagem, condicionando todo o percurso escolar do aluno. As dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita podem ser consideradas como dificuldades que se manifestam na aquisição de competências básicas, sobretudo na fase de descodificação, as quais se mantêm posteriormente na fase de compreensão e interpretação de textos (Rebelo, 1993).
Rebelo (1993) divide os problemas na aprendizagem da leitura e escrita em dois tipos: gerais e específicos. Os primeiros resultam de fatores exteriores ao indivíduo ou a ele inerentes, no caso de se tratar de uma deficiência. Os fatores extrínsecos podem envolver situações adversas à aprendizagem normal, como o edifício escolar, organização, pedagogia e didática deficientes, abandono escolar, relações familiares e sociais perturbadas ou meio socioeconómico e cultural desfavorecido. Os fatores inerentes ao indivíduo referem-se à presença de uma ou mais deficiências declaradas. Tendo em conta a referência a aspetos como a presença de uma deficiência ou o meio social e cultural desfavorecido, este tipo de problemas não poderia ser incluído na categoria das Dificuldades de Aprendizagem, na medida em que estas excluem, por definição, estes fatores causais.
Os problemas específicos de aprendizagem da leitura e escrita situam-se, segundo o autor, ao nível cognitivo e neurológico não existindo para os mesmos, explicação evidente. Este défice era associado, inicialmente, a uma perturbação neurológica provocada por um traumatismo adquirido, com afetação do cérebro. À medida que a investigação na área se desenvolveu, a etiologia da Dislexia tornou-se mais esclarecedora, nomeadamente no sentido em que se constatou que esta surgia também em indivíduos com uma inteligência normal, sem problemas neurológicos ou físicos evidentes. Além disso, não apresentavam problemas emocionais ou sociais e não provinham de meios socioeconómicos e culturais desfavorecidos (Torres e Fernandéz, 2001). Assim, quando o indivíduo, apesar de reunir condições favoráveis para a aprendizagem da leitura, manifesta inesperadas dificuldades, então apresenta dificuldades específicas de leitura (Citoler, 1996 cit. in Cruz, 1999).
Existem várias expressões semelhantes para definir as dificuldades específicas de leitura, mas o termo tradicionalmente mais utilizado é o de Dislexia (Rebelo, 1993). A Federação Mundial de Neurologia define-a como “a dificuldade na aprendizagem da leitura, independentemente da instrução convencional, adequada inteligência e oportunidade sociocultural. Depende, portanto, fundamentalmente, de dificuldades cognitivas, que são frequentemente de origem constitucional” (1968, cit. in Fonseca, 1999, pág. 290).
Nesta perspetiva, a Dislexia é considerada uma perturbação da linguagem que se manifesta na dificuldade de aprendizagem da leitura e da escrita, em consequência de atrasos de maturação que afetam o estabelecimento das relações espácio-temporais, a área motora, a capacidade de discriminação preceptivo-visual, os processos simbólicos, a atenção e a capacidade numérica e/ou a competência social e pessoal, em sujeitos que apresentam um desenvolvimento adequado para a idade e aptidões intelectuais normais (Torres e Fernandéz, 2001).
Segundo as mesmas autoras, esta conceção de Dislexia como um atraso específico de maturação, permite que a mesma seja entendida como uma perturbação evolutiva e não patológica, o que apresenta consideráveis vantagens no domínio da avaliação e da intervenção, nomeadamente permitindo a identificação de diferentes tipos de Dislexia.
A dislexia é uma disfunção neurológica, que se manifesta ao nível da dificuldade de aprendizagem da leitura, em pessoas com inteligência normal ou acima da média.
Esta dificuldade crónica não está relacionada com a qualidade do ensino, o nível intelectual, as oportunidades socioculturais, ou as alterações sensoriais. Tem uma base neurobiológica, com alterações na estrutura e funcionamento neurológico, e pode apresentar uma influência genética.
Quem sofre de dislexia apresenta um esforço acrescido para distinguir letras, formar palavras e compreender o seu significado. Os alunos que têm estas dificuldades não são preguiçosos, pouco inteligentes imaturos, nem têm necessariamente problemas visuais ou de postura. Requerem um tratamento terapêutico intensivo e apoio no processo de ensino-aprendizagem, para que consigam ter sucesso.
Ainda que esteja relacionada com a aprendizagem da leitura, a dislexia pode ter consequências noutras áreas académicas e a nível emocional e comportamental. É frequente a comorbidade com outras perturbações: perturbação específica da linguagem, discalculia, disortografia, descoordenação motora, défice de atenção com ou sem hiperatividade, alterações do comportamento, perturbação do humor, perturbação de oposição e desvalorização da autoestima.