Boa noite,
Devem receber milhões de e-mails a dizer o mesmo, mas acho que gostaria de deixar o meu testemunho.
Desde muito cedo que tive dificuldades em acompanhar o ritmo para o que se esperava de uma criança naquelas idades. Comecei a falar um pouco mais tarde do que o normal e até muito tarde tinha dificuldade em dizer certas palavras como Crato " Carto" e outras mais que me faziam sentir menos inteligente, principalmente porque tinha um irmão e uma prima da minha idade que eram simplesmente o inverso de mim, mega inteligentes, não estudavam e tiravam grandes notas, etc.
Sempre fui muito dedicada aos estudos e sempre tive muito apoio familiar o que fazia com que até ao meu 6ºano tivesse média de quatros e cincos, tirando claro a português que normalmente ficava sempre no 3. A minha leitura era péssima e em ditados conseguia ter 5 a 6 erros por linha...
Com o tempo e apesar de toda a minha dedicação havia coisas que não se alteravam, tinha sempre grandes dificuldades na escrita e na leitura. Com a introdução de Línguas como Inglês e Francês tudo começou a piorar ainda mais.
No 8ºAno foi a catástrofe total (para mim claro) tinha tirado as minhas primeiras negativas (Português e História). A minha família achou por bem colocar-me numa explicadora de Português fora da escola já que todas as professoras diziam que era distraída e que escrevia e interpretava muito mal o português.
As minhas notas ficaram estáveis. Tudo positivo, 3 a tudo o que implicava escrita e 5 a tudo o que tivesse matemática, desenho e actividade Física. Acredito que me refugiava no que me dava segurança e confiança.
No meu 10ºAno e tendo sempre explicações de Português 3 vezes por semana durante estes 3 anos a minha própria explicadora pediu-me que fosse a uma psicóloga para ver se tinha dislexia, porque pelo que ela tinha lido eu tinha muitos "sintomas". Na primeira vez que me disse isso senti-me ofendida, até mesmo inferior. Apesar de ela me ter explicado o contrário e até me ter tentado motivar dizendo que grandes génios das ciências também o eram isso não foi suficiente para me deixar bem.
Apesar de tudo, e como nunca fui de me negar a nada, falei com a minha mãe que achou muito bem e fui fazer o exame. A psicóloga era dislexia também o que me fez ficar bem mais segura. Apesar de tudo nada nos impede de alcançar patamares mais altos.
Fui então diagnosticada com dislexia em 1998/1999, no meu 10ºAno. Segui o 10ºano e 11ºano sem problemas e sem grandes necessidades de ajudas, mas mantive a minha explicação de Português (não escrevo muito bem, mas já consigo escrever um texto com alguma logica, algo que no inicio era impensável) e tinha direito a mais 30 min nos testes caso precisasse.
Durante este tempo fui sempre acompanhada na escola (Escola Arco-íris da Portela de Sacavém) por uma psicóloga que sabia o que era a dislexia e sempre me apoiou (na minha parte da autoconfiança que acredito que até hoje continue a ser algo difícil de ter).
Segui para a faculdade, segui Eng.Civil e cheguei ao 4ºano no IST. Desisti porque percebi que não era aquilo que pretendia. Adoro desporto e era isso que pretendia fazer. E assim foi. Parei um ano e inscrevi-te novamente na faculdade, desta vez de Desporto onde estou agora a concluir.
Tenho 30 anos, sou professora de Capoeira, Instrutora de Cardio-Fitness, Spinning e Personal Trainer. Pratico alem destas actividades Jiu-Jitsu Brasileiro, Kick-Boking e Surf.
Não posso dizer que tenha sentido muito a discriminação, porque apesar de eu própria me criticar e de me inferiorizar todos os meus amigos, famílias e professores me apoiaram muito e como tal sempre ultrapassei os meus problemas.
Continuo com dificuldade básicas, como detectar erros meus em mails, poster promocionais, cartas. Sinto-me incapaz de falar em publico o que durante apresentações de capoeira tenho que o fazer e a mais marcante é sem duvida a incapacidade de diferenciar a esquerda da direita.
No meu exame de código pedi ao examinador que me indicasse com as mãos para onde queria que virasse já que tinha grandes dificuldades. Riu-se e em todas as curvas dizia esquerda ou direita e apontava para que me orientasse.
Os meus amigos já sabem quando vou a conduzir se quiserem que vire dizem, "para o meu lado" ou "para o teu lado". E na realidade já nem notam que o fazem. A capoeira tem uma vertente social MUITO forte o que me ajudou a ultrapassar algumas dificuldades que tinha.
Em frente a um espelho quando dou aulas de capoeira e tenho que dizer perna esquerda/direita atrás, digo. Perna com logotipo / sem logotipo atrás. E todos brincam mas todos respeitam e acho que isso é o mais importante.
Não me sinto mal de forma alguma e sei que é bastante leve para o que leio sobre o assunto. Sei também que tive muito apoio na parte mais importante da minha formação o que me fez não perder a confiança de que eu era capaz.
Tem dias que tudo corre mal, e que parece que tive um surto de estupidez, o que me atira um pouco abaixo, mas respiro fundo e penso amanhã é outro dia! Tenho tudo para ser feliz!
Acho que termino aqui a minha história. Nunca tinha escrito nada nem nunca tinha pensado bem no meu percurso até hoje. Por algum motivo não consigo dormir e fui parar ao vosso site e decidi escrever o meu testemunho.
Cumprimentos
R




